Turismo
TURISMO PORTUGAL - O turismo não pode ficar dependente da imobiliária
Para além das incertezas sobre o futuro próximo do turismo, causadas pela crise, surgem, depois de longos silêncios acomodados, dúvidas e preocupações de destacados empresários do sector. É uma situação nova.
O presidente da CTP, Pinto Coelho, afirmou, em entrevistas (15 e 18 Out.), que "os pressupostos do passado", que apontavam para um crescimento "contínuo e exponencial..." já "não são verdadeiros", concluindo que o PENT, feito na base desses pressupostos "tem de ser reavaliado...". Pinto Coelho afirma ainda que o modelo de turismo residencial entrou em ruptura, que as vendas imobiliárias estão paradas, que os grandes projectos vão abrandar e que "o grande impacto imobiliário dos últimos anos acabou", não hesitando em concluir que "é tempo de parar para pensar". Semanas antes, H. Montelobo, Administrador da Sonae Turismo, tinha afirmado em Setúbal, que estava preocupado com a "oferta excessiva" prevista para o Alentejo.
Por sua vez, Jorge Armindo, presidente da Amorim Turismo, afirma no Expresso (1 Nov.) que tem "sérias dúvidas" de que alguns projectos de imobiliária turística avancem e que "se for construído tudo o que está aprovado...teríamos um desastre nacional". Como se sabe muitos deles são ‘pin's'. Jorge Armindo denuncia ainda as "marcas estrangeiras, que não põem um tostão no país", contrapondo que "há grupos em Portugal que podem muito bem fazer a gestão de hotéis" e acusa a Hilton de ter vindo para o Algarve..."aviltar preços". Por sua vez, José Roquette, administrador do Grupo Pestana, num seminário sobre imobiliária no Sil (22 Out.), denunciou o excesso de projectos imobiliários, alguns pretensamente turísticos, duvidando que se possam inventar artificialmente "destinos turísticos" (alguns, disse, serão apenas destinos residenciais) e considerando que só os "hoteleiros" têm capacidade para garantir qualidade de serviço na gestão da imobiliária turística. O presidente da ex-Região de Turismo do Oeste, António Carneiro, grande arauto do turismo residencial na sua região, afirmou à Lusa (Outubro), que a crise financeira não só travou as vendas da oferta existente, como irá atrasar os inúmeros projectos, no valor de 2,5 mil milhões de euros.
São afirmações muito fortes que, vindas de onde vêm, não podem ser ignoradas.
Não deve haver equívocos nesta matéria. Não está em causa o papel da imobiliária na oferta turística, que é necessária e importante. O que está em causa é a apropriação do turismo pela imobiliária, através de operações que pouco ou nada têm a ver com o turismo, e o excesso de projectos. O que é discutível é querer atribuir-lhe o papel de "motor" do desenvolvimento turístico em nome do "investimento" e da "criação de investimento", inventando "algarves" impossíveis, por todo o país.
Para o viajante a lição é clara: a imobiliária, que é um sector económico importante, seguirá o seu caminho próprio, cruzando-se aqui e ali com o turismo, mas o turismo não pode ficar dependente dela, nem pode ser vítima das suas crises. Terá de afirmar um seu rumo autónomo. É esta a questão.
A proposta turística de Portugal tem horizontes bem mais vastos: deve assentar na riqueza multiforme que resulta dos infinitos recursos que a natureza, a geografia, a paisagem, o clima, a história, o património e a cultura generosamente proporcionam, dando origem a produtos e a uma oferta turística diversificada e inimitável, numa moldura humana excepcional. É tudo isto que faz a diferença.
O alojamento, as propostas imobiliárias e residenciais, o golfe e as mais variadas propostas de lazer, em Portugal, são importantes e o turismo precisa delas, mas servem sobretudo para enriquecer a matéria-prima base, genuína, que temos. Essas propostas - quando isoladas e dominadoras - correm o risco de gerar destinos turísticos frios, incaracterísticos e iguais a tantos outros por esse mundo fora. Seriam, como dizem os antropólogos, "não lugares". Falta-lhes alma. Falta-lhes a força dos verdadeiros "lugares", que emergem autênticos do território, da história e das pessoas - que nós temos e que não podem ser usados apenas como "cenário".fonte:diarioeconomico





